quinta-feira, 14 de maio de 2009

As causas de uma agonia alviverde

Texto criado por Karlos Felipe com intuito acadêmico.
Perto de completar cem anos, o América passa pelo estágio mais grave de uma crise que se arrasta há décadas. Conheça as razões que levaram o tradicional clube atual à atual situação.
No dia 12 de janeiro, um sábado, quando Sport e Salgueiro entrarem no campo da Ilha do Retiro, terá início a 94ª edição do Campeonato Pernambucano de Futebol. A quase secular competição reunirá doze clubes, movimentando as rivalidades locais e consolidando-se cada vez mais na vida dos pernambucanos. Entre os participantes estarão equipes de todo o Estado, desde os grandes da capital aos intermediários do interior. No entanto, mais uma vez, uma ausência será sentida: o América não jogará. Seis vezes campeão estadual – marca que o torna o maior vencedor depois de Sport, Santa Cruz e Náutico – o América Futebol Clube vive uma séria crise. A última participação do Alviverde na primeira divisão do Estadual foi em 1995. Uma campanha pífia, na qual a equipe venceu apenas quatro de seus 36 jogos, empatou três e perdeu 29. Marcou 25 gols e sofreu assombrosos 122, média superior a três por partida. Como não poderia deixar de ser, esses números levaram o Periquito à segunda divisão, de onde nunca mais voltou. Passados doze anos, o América disputou algumas vezes a segunda divisão e a Copa Pernambuco, tornou-se um clube itinerante, passando por cidades como Bonito e Goiana, mas não conseguiu sucesso e hoje se encontra licenciado. Sua sede, um belo casarão na estrada do Arraial, em Casa Amarela, está alugada à um colégio da rede particular desde 2001, com o clube tendo acesso apenas a uma sala, na qual guarda seus troféus e ocorrem as reuniões do Conselho Deliberativo. Tudo leva a crer que o América dá seus últimos suspiros. Para a tristeza dos milhares de desportistas pernambucanos. Uma longa crise
A derrocada americana foi um processo lento, para o qual contribuíram diversos fatores. O América era composto em seus primórdios por pessoas da elite social recifense, como, por exemplo, Arthur Lundgren, herdeiro dos Lundgren, que construiriam um império econômico, como lembra o jornalista Lenivaldo Aragão. “Eram pessoas da alta sociedade. O América rivalizava com o Náutico na questão de ser o clube da elite.” Opinião corroborada pelo atual presidente alviverde, Sérgio Serpa. “Para ser sócio do América era complicado. A pessoa tinha que ser apresentada por outro sócio, para em seguida ser aceita ou não”, recorda. Elitista, o América floresceu numa época em que o profissionalismo ainda engatinhava. Tendo poder econômico, o clube conseguia se preparar melhor para os campeonatos e também para os jogos decisivos. Não era raro a contratação de atletas de fora do Estado para as finais, prática que causava muita polêmica, mas que foi levada a cabo sobretudo por América e Sport, que, coincidentemente, venceram nove dos dez primeiros estaduais. Nesse tempo de glórias, o Alviverde por pouco não se tornou o primeiro pentacampeão. Conquistou os títulos de 1918 e 1919 e voltou a ser campeão em 1921 e 1922, a famosa conquista do Centenário da Independência do Brasil. O título de 1920 não veio por que o clube abandonou o campeonato devido a desavenças com a organização. O Periquito ainda levantaria a taça de 1927 e, por fim, a de 1944. A má fase do clube não começou imediatamente à essa última conquista. Após 1944, o América foi cinco vezes vice-campeão nos oito anos seguintes. Foi então que as boas campanhas começaram a ficar raras. Para piorar, a década de 1960 viu o fortalecimento do Náutico. Falta de torcida
Quando se fala na torcida americana, não é raro vir à memória a imagem de um senhor de idade, cheio de histórias para contar sobre um Recife charmoso, que ficou no passado. Um Recife no qual o América era um dos principais clubes. Lembra-se também do poeta João Cabral de Melo Neto, americano declarado ou ainda da famosa frase: “o América é o segundo clube de todo pernambucano”. O sociólogo Túlio Velho Barreto, que trabalha com a sociologia do futebol, destaca algumas razões para o fortalecimento de uma torcida e, conseqüentemente, de um clube. “Os resultados, os ídolos, a identificação com um local ou determinado setor da sociedade, as rivalidades. Tudo isso influi no crescimento ou não de uma torcida”, analisa. Na época em que muito disso faltava ao América, o Náutico esbanjava. Assim, o Alvirrubro começou a ganhar o definitivo “Clássico da Técnica e da Disciplina”, como era chamado o embate entre os clubes. Enquanto o Timbu mandava e desmandava em Pernambuco, conseguindo até mesmo resultados expressivos nacionalmente, e fazia dos Aflitos seu caldeirão, o Alviverde vivia um jejum. Dessa forma, não demorou para as novas gerações das classes mais abastadas começarem a acompanhar Gena, Bita e Lala, deixando o América de lado. Sempre elitista, o clube também não conseguia trazer para si a população de Casa Amarela e adjacências, que preferia torcer pelo Santa Cruz. Aos poucos, o Campeão do Centenário foi diminuindo. Sem patrimônio
O América foi um dos primeiros clubes pernambucanos a se preocupar em ter um campo próprio para jogar. Em 1919, os alviverdes arrendaram o terreno que até então era do British Club, nas imediações do que hoje é o Museu do Estado. No ano seguinte, partiram para o campo da Jaqueira, onde hoje está localizado parte do Parque da Jaqueira e lá permaneceram até o fim dos anos 1920, quando o Trainways assumiu o campo. Porém, a idéia de se ter um estádio próprio ainda não fazia tanto sentido. O que importava era ter um local para jogar e treinar. Numa época em que a cidade era bem menor e o profissionalismo era bem diferente do que é hoje, mas importante para um clube era ter uma sede do que um campo. Porém, essa época passou e o América ficou para trás. Enquanto na década de 1930 Náutico e Sport investiram na compra dos terrenos que hoje são seus estádios, o Alviverde não seguiu o exemplo. “Faltou visão aos diretores do América na época”, entende Carlos Celso Cordeiro, historiador do futebol pernambucano. Ciclo maldito
A situação do América era complicada. Sem títulos, não havia forma de trazer outros torcedores. Sem torcida, os recursos ficavam escassos e, assim, a formação de bons times era impossível e os títulos não vinham. Para complicar ainda mais, era o Santa Cruz passou a viver seu apogeu e angariando mais e mais torcedores, até mesmo de fora das classes populares. “Antigamente, os clubes se sustentavam com a renda de suas atividades sociais. Depois disso, foi com o dinheiro dos diretores ricos que se fazia o futebol, além das rendas de jogos, que começaram a fazer a diferença, mas nós não tínhamos estádio,”, diz o presidente Sergio Serpa. Nessa época dos “diretores-mecenas”, foi de fundamental importância a família Moreira, cujo principal expoente foi Rubem Moreira, presidente da Federação Pernambucana de Futebol (FPF) por quase três décadas. “Até essa época, entre as décadas de 1970 e 1990, nos conseguíamos nos manter. Após o Plano Real, houve uma mudança no País, houve um nivelamento por baixo em termos de economia. Muitos diretores, que tinham dinheiro acumulado e investiam apenas os rendimentos no clube, não tinham mais como fazer isso”, explica. Foi quando a crise americana chegou ao estado atual. O futuro
“Acho muito difícil o América se levantar. O futebol, hoje, é um show, um negócio, é necessário platéia, investimento, estrutura e o América não tem”, afirma o jornalista Fernando Menezes, que tem uma opinião que é quase um consenso. As chances do América voltar a ser grande são mínimas, mas é possível continuar existindo. “Vejo como uma possível saída para o clube a ida para uma cidade do interior. A população e o empresariado local poderiam adotá-lo. Até já foi tentado algumas vezes, mas sem sucesso”, diz Cordeiro. “É muito complicado para um clube como o América continuar existindo em uma cidade como Recife, que já tem três grandes torcidas, mas é um clube que tem uma marca forte”, diz Barreto. O presidente americano, no entanto, garante que o atual momento é apenas uma fase. “Que fique bem claro: o América não está morto. Nós da diretoria não estamos de braços cruzados. Recentemente tivemos uma reunião do conselho e houve discordâncias, cada um querendo uma coisa diferente. Quer prova maior do que o clube está vivo?”, afirma Serpa, que está no cargo há dois anos. “O clube está licenciado por que nós não vamos jogar o nome do América na lama. Temos que ter muito cuidado, não vamos montar qualquer time apenas para disputar. Se o Íbis perde de goleada, é até engraçado, se é com o América, é um absurdo. Se anunciamos um projeto e ele não se concretiza, fica parecendo que estamos soltando ‘peruas’”, desabafa Serpa. “Temos muitos projetos em andamentos, mas, como se trata do América, temos que ter todo cuidado. Há diversos empresários que querem firmar parcerias com o clube, mas temos que estudar bem e oferecer uma mínima estrutura para viabilizar esse tipo de projeto”, conta, para em seguida explicar qual seria o principal desses projetos. “Pretendemos construir um estádio, pequeno, em algum município próximo. Estamos estudando. Nosso principal problema não é a falta de dinheiro, mas sim a falta de pessoas, de renovação. Com as idéias de novas pessoas, podemos fazer mais dinheiro”, encerra Serpa. Do antigo América, resta apenas a gloriosa história, mas um novo América pode surgir. Se os atuais diretores souberem enxergar com nitidez a nova forma de fazer futebol e trabalharem nesse sentido, é possível ver novamente o América orgulhando seus torcedores, quem sabe até membros de uma nova geração? Caso do América se repete em outros estados
O caso do América não é único. São vários os clubes tradicionais que vêm sofrendo graves crises nos últimos anos. No Pará, a Tuna Luso chegou a estágio parecido, mas dá sinais de reação. No Rio de Janeiro e em Minas Gerais, os Américas locais também vivem momentos complicados. Mesmo que a existência do clube não fique ameaçada em um primeiro momento, a queda do número de torcedores é notável, caso do Ferroviário em relação aos rivais Fortaleza e Ceará. “A tendência é que isso continue. O mais comum no resto do mundo é que, mesmo em cidades grandes, haja penas dois clubes que polarizem as atenções. Já é assim em Porto Alegre, Salvador, Belo Horizonte”, diz o sociólogo Túlio Velho Barreto, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Sociologia do Futebol (UFPE/Fundaj), citando cidades que já tiveram mais de dois grandes clube. “Exceções são cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Londres, que têm vários clubes importantes e com torcida. Até o Recife pode se enquadrar nesse caso, já que não é uma cidade que inicialmente comporte três grandes torcidas”, complementa. Barreto também vê a influência da mídia, assim como dos resultados, nas mudanças que levam clubes a crescerem ou diminuírem e até mesmo desaparecerem. “Se um clube passa muito tempo sem ganhar, sem ídolos, é comum que as novas gerações passem a acompanhar e torcer por clubes de outros locais, dos grandes centros por exemplo, ou até mesmo do exterior, já que são essas agremiações que estão na mídia, com notícias e transmissões de jogos”, analisa.

2 comentários:

  1. Meus caros, o texto é muito bom, assim como a maioria dos posts desse blog. Mas, tem um grande problema que vocês precisam resolver. O TAMANHO DA LETRA. Tem sido difícil ler os artigos porque a letra está muito pequena, além de ser verde. Pessoal, dá uma aumentada aí. Abraço. Fernando Tasso.

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  2. Olá amigo Fernando Tasso,

    Como vc mesmo sugeriu já resolvemos a questão do tamanho da tipografia (agora ele está maior), também vamos conversar para saber se iremos mudar a cor e obrigado pela sugestão.

    Abraço.

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