quarta-feira, 12 de agosto de 2015

MEMORIAS DA FONTE NOVA, OU, RECORDAÇÃO DA CASA AMARELA,TÍTULO ORIGINAL!!

Recordações da Casa Amarela

 A Casa Amarela do bairro do mesmo nome em Recife
                                     
O América FC de Pernambuco já foi um dos grandes clubes do Nordeste. Não surgiu com este nome, mas sim com a denominação de João de Barros FC em função da rua onde se instalava. Precisou uma visita do próprio zagueiro Belfort Duarte, em 1915, para que mudasse de nome, adotando o que ganhou o reconhecimento da aristocracia pernambucana.
Nas duas primeiras décadas de sua existência o novo clube brilhou bem alto. Também não é pra menos. O “mequinha” faturaria dois bicampeonatos, em 1918 e 1919 e em 1921 e 1922, e o certame de 1927, sem contar com os vices de 1923, 1924 e 1930. Mas o maior feito mesmo seria o título do primeiro campeonato nordestino realizado em 1923 que, entre outros clubes, teve a participação do EC Vitória e do Botafogo da Bahia.
Nesta época passou a contar com as simpatias da colônia portuguesa do estado e atingiu outros bairros de classe média e até populares, além do da Casa Amarela. Os clubes de Pernambuco, porém, só começaram a jogar na Bahia no final dos anos trinta. Veio o Santa Cruz, o Náutico, o Sport, mas o ameriquinha só chegaria por aqui, na Bahia, perto do fim da Segunda Grande Guerra, após no ano anterior ter voltado a conquistar o título estadual.
Será que sua diretoria era pacifista? Seja como for passaria uma semana em Salvador pisando no campo da Graça no dia histórico de onze de março de 1945 quando o exército de Hitler já estava encurralado em Berlim e poucas cidades. O ditador nazista se suicidaria no fim do mês seguinte, mas a equipe americana não estava “nem aí”, tanto que estrearia ganhando do Galícia, que tinha faturado o inédito “tri” baiano, por dois a um. A boa impressão dos baianos não diminuiria nem com a derrota para o Bahia por três a zero quando dormiu nos louros do triunfo. Neste ano ficaria com o vice no certame pernambucano.
O “mequinha” voltaria ainda por duas vezes nesta década. A Bahia vivia uma nova situação política. Haviam acabado os interventores e prosperava o nacional-desenvolvimentismo que iria dar os primeiros frutos com as construções do Hotel da Bahia, a CHESF, a Refinaria Landulfo Alves – RLAM e a Fonte Nova. Em 1946 faria duas partidas contra o tricolor, em fevereiro e em setembro no campinho da Graça. A primeira, nas proximidades do carnaval e com os jogadores de banzo com a admirável folia pernambucana, resultou em nova derrota, quatro a dois. Mas a segunda um dia após a data magna da chamada independência do Brasil, se desforraria vencendo por três a dois.
O verdão seria “bi vice” nos dois anos seguintes, e pisaria de novo as terras baianas em julho de 1949 jogando com a dupla BA-VI.  O Vitória não resistiria a sua boa equipe na ocasião, caindo por dois à zero. No entanto, o tricolor, continuaria atravessado na sua garganta, experimentando nova derrota por quatro a dois. Sua despedida do velho estádio da Graça de arquibancadas de madeira seria em primeiro de setembro de 1950. Era véspera de eleições e as obras do novo estádio da Fonte Nova já estavam bem adiantadas. Estava terminando uma época esportiva na Bahia e quem pagou foi o “mequinha” à custa de uma goleada de cinco a um para o mesmo esquadrão de aço.
                                           João Cabral de Melo Neto, um americano "roxo"
O América seria um dos primeiros clubes do Brasil a jogar na Fonte Nova, apenas quatro dias depois da celebração da data magana dos baianos o Dois de julho de 1952. A resistência dos pernambucanos foi grande, mas o tricolor acabou ganhando por dois a um. Doravante a sua presença se daria durante as comemorações da independência.
O América brilharia no ano seguinte. Sua temporada lembrou os heróis pernambucanos que deram uma contribuição decisiva para a vitória baiana e brasileira na Batalha de Pirajá elogiados pelo próprio General Labatut. No próprio dia dois de julho empataria heroicamente em três gols. Três dias depois obteria novo empate contra o Vitória, deste vez em um gol. E se despediria com novo empate, com o seu conterrâneo Sport, por dois gols.
O América não ganharia mais títulos estaduais, mas dois anos depois venceria o torneio início daquele certame, voltando a Bahia no início do ano de 1956. Já não tinha a mesma boa equipe de três anos atrás e este irreconhecível na estreia perdendo para a grande equipe do Botafogo por cinco a zero. A reabilitação veio dois dias depois contra o mesmo Bahia que era uma pedra em seu sapato, empate em dois gols. O tricolor, porém, pediu revanche e o “mequinha” acabou concedendo. Veio assim a Salvador, três semanas depois, exclusivamente para fazer este jogo onde foi derrotado por dois a zero. Dois meses depois voltaria a Fonte Nova, desta vez pra enfrentar o Galícia, antigo “demolidor de campeões”, sendo novamente derrotado, agora por três a dois.

Os anos de ouro do futebol brasileiro deixariam á margem o América. O time perde a condição de terceira torcida do estado para o Náutico e tem campanhas pouco honrosas no certame pernambucano, a exceção da conquista de dois torneios inícios em 1967 e 1970. Os convites para excursões que sempre recebia passam a rarear. Até os ingratos dirigentes esportivos baianos se esqueceram do América.
Mas, quando inauguraram seu anel superior em 1971 foi a própria Fonte Nova que exigiu o retorno do América. Ela se lembrava daquele time valente e leal que desde cedo tinha frequentado os seus gramados. Foi por isto que trouxeram de novo o “mequinha” nos início dos anos setenta. A discriminação era ainda mais odiosa, pois o time participava da Segunda Divisão em 1972 e os times baianos jogariam com o Sport, Náutico e Santa Cruz no certame da Primeira.  
Mas não adiantou as intrigas da oposição. No dia cinco de maio de 1973 os pernambucanos voltavam ao nosso histórico estádio para enfrentar o EC Vitória. Foi um embate difícil, assim como a maioria daqueles que o América representou Pernambuco em terras baianas, ao final um a zero para o rubro negro. Um ano depois viria a despedida da Fonte Nova. Foi um jogo contra o Botafogo em 26 de maio. Quem foi ao estádio naquele dia não imaginou que seria a última vez que veriam os bravos pernambucanos que demonstraram isto em campo obtendo um empate sem gols.
Mas depois não teve choro nem vela. Nunca mais trouxeram o ameriquinha. Demos o azar de nas quatro vezes que o verdão disputou a Segunda, e no ano em que disputou a Terceira, não encontrou clubes baianos por lá. O Vitória construiu seu próprio estádio, o “Barradão”, e largou a fonte do futebol. Nesta época, pra piorar as coisas, o América foi rebaixado para a Segunda Divisão do campeonato pernambucano.
Desde então o Bahia ficou jogando sozinho na Fonte Nova. Esta, porém, entrou o novo milênio com saudades do ameriquinha. Sempre que havia na programação um América ela se excitava toda. Mas o que vinha era o de Minas, o do Rio de Janeiro, e até o de Manaus. Mas, se é dado a alguém “morrer satisfeito” isto ocorreu com a Fonte Nova. No ano em que ocorreu sua morte matada, através de implosão, ela soube que o América tinha voltado a Primeira Divisão do estado irmão.
Há certo tempo o cineasta português João César Monteiro fez um filme, Recordações da Casa Amarela, que lembra a história do América. Na obra o personagem central, João de Deus, passa por doenças, vicissitudes, chega a ser internado em um hospício, mas não perde o gosto das belas coisas. Ao fim do filme continuamos vendo um ser humano cheio de planos. O América voltou ao lugar onde nunca deveria ter saído. A Fonte Nova não existe mais, mas os baianos esperam que o verdão volte aos seus grande dias!
Postado por Franklin Oliveira Jr. em 22 de fevereiro de 2011 no Blog Memórias da Fonte Nova
·         Agradeço as informações dos sites do América (PE), do blog do mequinha, Wikipédia e Futipédia.Sou grato as imagens dos blogs lenaeocinema.blogspot.com,recife.pe.gov.br,yellowhouse.news.blogspot.com e revista.agulha.nom.ba. 

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